domingo, 18 de outubro de 2009

Da minha dificuldade em ouvir "não"


Muita gente fala que meu problema é ouvir o “não”. E eu concordo.
Apesar de simpática, interessante e carismática, sempre fui uma criança manipuladora, daquelas que usa todos os artifícios positivos para conseguir o que querem. No meu caso eu ainda contei com o fator “flexibilidade paternal extrema” que nada mais era que um amor em demasia, imensurável, que acabou por me prejudicar no futuro. Aquela parte em que a vida te dá os limites e a própria vida te diz um sonoro “não”. (Que você nunca foi acostumada a ouvir).
Na minha casa eu e meu irmão sempre tivemos regalias exageradas, tipo carrinhos de supermercado exclusivos que abastecíamos com as mais diversas guloseimas sempre que uma visita ao supermercado era feita (era a tal época da "inflação" e fazer compras "para o mês" era mais que normal). Tínhamos sete e 11 anos, respectivamente. Não posso negar que era bom ter essa autonomia para comprar o que quiséssemos sem a reprovação de um adulto. 
Interessante foi também o período que meu pai passou a ocupar um cargo alto na empresa que ele trabalhava e isso fez com que ele passasse a chegar em casa tarde da noite. Para compensar essa “ausência” a alternativa encontrada foi equipar sacolas e mais sacolas com chocolates e –literalmente- despejar tudo em cima de nós. Chegava a ser engraçada a cena. Aquela chuva de afeto em cima de duas crianças felizes...
Mas aí a gente cresce e descobre que a vida adulta nos reserva diversos “nãos” e eles vêm no quesito amizade, trabalho, paixões... e é aí que o mundo das pessoas como eu literalmente cai. E dá-lhe noites de choro, reflexões sem nexo, colo de mãe, pai, irmão e sessões de terapia pra tentar entender o porquê daquilo estar acontecendo com a gente. "Logo comigo", sabe?
Passei por uma decepção recentemente – e decepcionei também, confesso – e depois de um sofrido mês de incompreensão e tentativas de entender o motivo das coisas terem rumado de tal forma, só me resta conformar com o que a famigerada vida me reservou, e esperar a recompensa por ter amargado sentimentos tão ruins num coração que eu juro ser dos mais nobres.
Eu preciso socar na minha cabeça que as pessoas pensam diferente e nem sempre o que eu quero tem de ser feito à pronta-entrega. E é isso que eu aprendi em 2009, um ano que foi maravilhoso em milhares de quesitos, inclusive quando não foi tão maravilhoso assim. Esse capítulo em que eu tive que deixar morrer de morte matada uma pessoa de fato especial. E que vai continuar sendo, assim que eu conseguir colocar meus sentimentos no devido lugar e descobrir que retaliação não se assemelha a amor em nenhum lugar do mundo.



Como eu digo pra mim mesma: “você não sabe o que é amor, menina”.

6 comentários:

  1. É, como já dizia o grande Rocky Balboa, ninguém bate mais forte que a vida.

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  2. Tirando a linha de raciocínio extremamente precisa, esse texto poderia ter sido escrito por mim. É difícil crescer em uma realidade alterada e eu vivi assim. Hoje, esbarro com pequenas coisas, pequenos detalhes, que são... simples. Coisas pequenas que me afetam, como não saber ouvir "nãos", não entender por que as coisas não acontecem do jeito que eu quero, não entender por que as coisas não caem nas minhas mãos. Algumas pessoas já me chamaram de mimada, mas existe todo um contexto por trás de certas atitudes. É um processo modificar isso. Um processo lento, porque a realidade alterada é bastante confortável.

    ;*

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  3. nossa. que texto.


    é, às vezes a vida nos apronta umas.... mas essa é só uma maneira de nos ensinar algumas coisas.


    sei bem do que vc tá falando, believe! Espero que consiga logo colocar seus sentimentos no lugar.

    beijo

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  4. Bella... teu post post pode até estar um pouquinho triste, mas muito racional.
    Aquele tanto de "sims" que ganhamos ao longo da nossa vida, em especial, os excessos deles na infância, nos tornam pessoas despreparadas para o mundo.
    Digo isso tbm pq sinto. Eu nunca tive um carrinho de compra exclusivo, mas tive tanto amor e flexibilidade dos meus pais, que acabaram por me "estragar" um pouquinho.
    E agora? Não adianta culpá-los. A gente rala na vida, e aprende da pior maneira... à base de "nãos" alheios.
    É bom? Nem pensar. Mas necessário para o crescimento e evolução pessoal? De certeza.
    Então, não vou te desejar menos "nãos" na sua vida, mas força e maturidade para compreender cada um deles, aceitar quando for preciso, e tocar para frente.
    ;)

    Beijokas

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  5. Oi Bella, odorei seu texto, mas diferente de você eu cresci rodeada de "não" e isso me fez amadurecer muito em pouco tempo, tive uma adolescencia toda controlada e eu posso dizer que em todas situaçoes temos que crescer de alguma forma, porque quando a vida começou a me dizer "sim" eu também nao soube reagir a isso e também sofro muito para aprender aceitar e aproveitar o que tenho agora !

    beijão

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  6. Amiuga! você me entope de orgulho!!
    que texto maravilhoso, e podemos dizer que mais uma vez temos coisas em comum viu! hehe

    amei saber que voltou com o seu blog. fico muito muito muito feliz! tenha certeza que estarei por aqui sempre.


    beijinhus**

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